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Inteligência artificial na educação – o que é possível aprender com ela? - UOL EdTech

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Diante de um mundo em franca transformação, em que muitas profissões estão sendo substituídas por máquinas inteligentes, em que percebemos, diariamente, como os dispositivos que usamos estão cada vez mais poderosos, em que já se conhecem carros autônomos e em que já existem robôs que fazem cirurgias, é claro que todos começam a imaginar o que a Inteligência Artificial vai fazer com a educação.
Vai substituir os professores? Vai acabar com as escolas? Vai permitir que todos aprendam tudo a um custo baixíssimo? Vai tornar a vida dos alunos mais fácil? Ou vai tornar a vida de todos nós mais complexa?

Eu diria que a resposta é não, não, não, não e sim.
Vamos entender por quê.

 

Antes de responder a todas essas perguntas, vamos observar o que a Inteligência Artificial está prometendo para a área da Educação: sistemas tutoriais inteligentes, aprendizagem adaptativa e personalizada, processamento de linguagem natural, tradutores automáticos, óculos inteligentes. Ou seja, será possível treinar robôs para, a qualquer hora do dia, sem direitos trabalhistas, responder perguntas sobre algum assunto em linguagem natural, falada ou escrita. Será possível ter acesso a traduções bem razoáveis das línguas mais comuns, será possível ver uma imagem de uma montanha com um óculos inteligente e saber que aquilo é uma montanha – ou uma borboleta, ou uma borboleta voando na frente de uma montanha! Será possível, sim – aliás, já é – elaborar programas em que se aprende algo passo a passo, no seu ritmo, com estímulos orais e escritos e com música e com pontuação variável dependendo da velocidade e da qualidade da resposta.

 

Qual é o papel da inteligência artificial na educação hoje?

 

Realmente, o futuro é promissor. Mas existe um problema: todas essas maravilhas só ensinam conhecimento existente. Não vamos menosprezá-las. A humanidade tem, gera e continua gerando uma quantidade absurda de conhecimento, e ter um robozinho para ajudar a ensinar tudo o que podemos querer aprender é uma ajuda e tanto.

No entanto, a Inteligência Artificial não resolve problemas novos. Ela sabe te informar sobre as mudanças climáticas e suas consequências, mas não traz a solução para este fenômeno. Ela calcula a quantidade de plástico nos oceanos e os danos que eles provocam, mas não diz como resolver este problema. Ela apresenta todos os dados que se queira conhecer sobre injustiça social, mas não alimenta ninguém. Ela ajuda a mapear um vírus, mas não cria os novos métodos necessários para criar uma nova vacina para uma nova doença.

Voltando à nossa primeira pergunta: ela vai substituir o professor? Bem, se o professor achar que a sua função se resume a transmitir conhecimento existente, ele arrumou um concorrente de peso: seres inanimados, sem salário nem sindicato, que rastreiam informações e as transmitem e dão comandos de maneira cada vez mais confiável e ainda conseguem identificar o que cada aluno sabe ou não sabe e oferecer exatamente a informação que ele ainda não possui.

Por outro lado, é essa a função do professor? Vejamos apenas uma das competências gerais que um aluno de Ensino Fundamental deve desenvolver ao longo da sua escolaridade – a de número 2:
“Exercitar a curiosidade intelectual e recorrer à abordagem própria das ciências, incluindo a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação e a criatividade, para investigar causas, elaborar e testar hipóteses, formular e resolver problemas e criar soluções (inclusive tecnológicas) com base nos conhecimentos das diferentes áreas.”

Dentre as habilidades que todo aluno brasileiro deverá desenvolver na escola, a maioria não pode ser aprendida por meio da Inteligência Artificial. A única expressão dessa competência que pode ser desenvolvida com a ajuda da Inteligência Artificial, é “com base nos conhecimentos das diferentes áreas.” Sim, o conhecimento das diferentes áreas poderá ser aprendido de forma divertida, personalizada, a qualquer hora e em qualquer lugar com o apoio de Inteligência Artificial. A curiosidade intelectual, a investigação, a reflexão, a análise crítica, a imaginação, a criatividade, a formulação e a resolução de problemas terão de ser desenvolvidas pelos alunos, com o estímulo de um bom professor. Não há Inteligência Artificial que seja capaz de criar conhecimento novo.

 

E a escola, vai acabar?

 

É claro que não, mas o uso do tempo e do espaço neste ambiente deve mudar. Provavelmente, os alunos dedicarão parte do seu tempo a aprender o que já se sabe – as disciplinas das diferentes áreas – e outra parte significativa a projetos colaborativos. Tanto a aprendizagem das disciplinas quanto os projetos poderão ser aprendidos em parte na escola e em parte em outros locais, mediados por tecnologias que conectam os seres humanos. Provavelmente, o desempenho dos alunos será monitorado constantemente a partir do seu comportamento e aproveitamento.

As atividades de desenvolvimento do corpo e da mente continuarão tendo de ser realizadas de alguma maneira – e presencialmente na escola deve ser mais divertido, e os esportes coletivos terão de ocorrer ali mesmo. E toda a espécie de exercício de empatia, diálogo, resolução de conflitos e cooperação, que fazem parte da competência 9 da BNCC, deverá ocorrer entre humanos, de preferência em grupos e presencialmente, mas não se pode descartar a possibilidade de desenvolver essas habilidades a distância, conectando humanos, e deixando a Inteligência Artificial de lado.

Já deu para ver que nem todos vão aprender tudo a um custo baixíssimo, não é? Até poderemos distribuir bastante conteúdo com o apoio da inteligência artificial de maneira mais interessante do que é possível fazer hoje. Mas isso estará limitado “ao conhecimento das diferentes áreas.” Quem vai aprender a dialogar, resolver conflitos e solucionar problemas? Quem vai desenvolver a criatividade, praticar cuidados com o corpo e com a mente e a cooperação? Quem vai ter a sua curiosidade estimulada? Só quem tiver acesso a bons professores. Como bons professores precisam de salário, horário de trabalho regulado e possivelmente continuarão ligados a sindicatos, a educação de melhor qualidade continuará sendo muito mais cara do que uma educação focada somente no conhecimento existente que pode ser veiculado por máquinas. Resolver a inequidade na educação envolverá muita atenção, trabalho e investimento de tempo, pessoas e dinheiro.

 

A vida dos alunos ficará mais fácil?

 

Não! Será mais fácil aprender o “conhecimento das diferentes áreas”. Com isso, as exigências quanto a esse tipo de conhecimento aumentarão. E ainda será necessário desenvolver todas as habilidades que se pode construir sobre esse conhecimento. Notas serão importantes, mas não suficientes, e as habilidades mais complexas serão cada vez mais demandadas pela sociedade.

E a vida de todos nós, será mais complexa? Sim! Em um mundo em que todas as tarefas simples de replicar conteúdo, aprender e ensinar conteúdo existente poderão ser realizadas por máquinas, sobrou para nós, humanos, realizar as tarefas complexas. Não vai dar para viver de repetir “a matéria”, fazer cálculos previsíveis, escrever documentos padronizados. Quem terá espaço no mercado de trabalho será quem sabe cooperar, discutir, se expressar, formular hipóteses, resolver problemas. Quem quer saber algo e sabe onde buscar. Quem tem curiosidade e empatia. Quem se interessa por manter os alunos curiosos, quem os ensina a cooperar e a usar a linguagem de maneira efetiva nos mais variados contextos.

Pensando bem, que venha a Inteligência Artificial.